Carta resposta à matéria publicada no Psi - Jornal de Psicologia do CPRSP

São Paulo, SP, 06 de Maio de 2008.

Ao
Conselho Regional de Psicologia SP – 6ª região
A/C Sra. Marilene Proença Rebello de Souza – Presidente CRP SP
Rua Arruda Alvim, 89 – Jardim América
05410-020 – São Paulo – SP
Tel. 3061-9494 – Fax 11 3061-0306

Ref: Matéria publicada no Psi - Jornal de Psicologia do CPRSP – Edição 155

Caros (as) Senhores (as):

Ficamos muito surpresos com a publicação veiculada no periódico no. 155 - março-abril 2008 do PSI - Jornal de Psicologia do Conselho Regional de Psicologia São Paulo sobre a Dislexia.
A primeira surpresa refere-se à desconsideração ou desinformação quanto ao diagnóstico médico, sabendo-se que a Dislexia é uma patologia que está incluída no CID - Código Internacional de Doenças, sob o número R48. 0 e, também, do DSM IV. Portanto, alguns profissionais imaginarem que a Dislexia não exista parece “um navegar na escuridão contra a maré.”.

A segunda surpresa é o fato de desconhecer que os estudos genéticos estão avançando e desde 1983 vários locus cromossômicos estão correlacionados à Dislexia. Os cromossomos envolvidos são o 6, 1, 12,15 e com vários estudos replicados e confirmados (Smith e cols, 1983; Grigorenko e cols, 1997; Schulke-Korne e cols, 1997; Fischer e cols,1999 ). Rabin e cols,1993 sugeriram a existência de translocação no cromossomo 1, mas este achado não foi, ainda, replicado.

A terceira surpresa é a referência de que um fator biológico não é suficiente para caracterizar uma doença. Se as alterações genéticas encontradas e publicadas não são suficientes para os editores do Jornal aceitarem o diagnóstico da Dislexia, podemos citar trabalhos nacionais e internacionais( Galaburda, Beaton, Geschwind, Bryden, Ciasca ) realizados por Ressonância Nuclear Magnética, pelo SPECT (cintilografia cerebral ) e mesmo estudos anatomopatológicos revelando alterações funcionais e anatômicas em diversas regiões do cérebro dos disléxicos ( áreas temporais, parietais, occipitais, e cerebelares ).

Sabe-se que, pelos dados publicados na literatura, a prevalência da Dislexia está situada na faixa que varia de 8-15%, seja nos Estados Unidos, Canadá, França, Austrália, Israel, China e Japão. Portanto, pode-se perceber que não há limites geográficos para se considerar a Dislexia. Quanto à herança familiar, quando um dos pais é portador de Dislexia a probabilidade de um filho ser disléxico está na faixa dos 40%. Considerando-se fatores hereditários, quando os pais portadores da dislexia têm filhos gêmeos bivitelinos ,somente um deles poderá ser afetado, mas se forem invitelinos, ambos apresentarão a dislexia.

Portanto, desprezar os dados disponíveis, sejam eles biológicos e/ou funcionais, sugere que alguns profissionais da área da saúde e educação estão desatualizados em relação à conceituação médica da Dislexia.

Nas avaliações feitas pela ABD - Associação Brasileira de Dislexia, a prevalência está na mesma faixa dos índices mundiais, ou seja, 12%.

A equipe da ABD tem feito o diagnóstico de Dislexia em 70%-75% dos casos lá avaliados; essa cifra, aparentemente elevada, está relacionada ao fato que as crianças são encaminhadas pelos orientadores educacionais, psicólogos, neuropediatras e psiquiatras com suposto diagnóstico de Dislexia..Os adultos avaliados na ABD, em geral, vem por conta própria, devido às dificuldades de longa data ou por se identificarem com as dificuldades semelhantes às dos filhos diagnosticados.

A quarta surpresa refere-se a não validação do diagnóstico de exclusão. O diagnóstico de exclusão é perfeitamente pertinente em qualquer circunstância, mormente na Dislexia primária que é a geneticamente determinada tendo como condição sine qua non o nível de inteligência normal, oportunidades de aprendizado adequadas, sem déficits neurológicos.Nesses casos a avaliação multidisciplinar é necessária para se afastar outras doenças. A Dislexia secundária, encontrada em torno de 25-30% dos pacientes avaliados na ABD é conseqüente a lesão cerebral, portanto necessita abordagem diferente, pois cursa com defasagem do desenvolvimento intelectual, sensorial ou motor. O portador da Dislexia primária, quando bem orientado, terá todas as oportunidades para uma vida normal e com sucesso.

O tratamento dispensado ao paciente disléxico necessita, por vezes, o uso de medicamentos, pois a comorbidade é freqüente, como o déficit de atenção, a hiperatividade, a enurese, a migrânea, a ansiedade, a depressão. Nessas circunstâncias não é possível se imaginar prescindir do tratamento medicamentoso, pois nenhuma terapia terá o sucesso esperado quando outras intercorrências associadas prejudicam o rendimento individual. Os medicamentos são necessários, muitas vezes por sua ação imediata para aliviar certos desconfortos. Talvez o uso abusivo dos medicamentos seja patente, mas devemos considerar que nem sempre é o médico especialista o responsável pela prescrição dos medicamentos psicoestimulantes.

A quinta surpresa está relacionada à consideração da conselheira do CRP e psicóloga escolar que imagina não ser a avaliação psicológica do portador de Dislexia, uma contribuição efetiva para a área da educação. Soa estranho que essa não seja uma atuação relevante dos psicólogos. Claro fica que a Dislexia é um quadro que necessita orientação multidisciplinar, implicando na intervenção do neuropediatra ou psiquiatra, psicólogo, psicopedagogo, fonoaudiólogo, além da participação efetiva da escola, professores, orientadores educacionais e familiares.

Por considerar a Dislexia como uma questão de saúde pública, a ABD tem se empenhado junto aos legisladores para que se criem condições adequadas para atendimento global em nível populacional aos portadores de Dislexia. As propostas são no sentido da capacitação dos professores e orientadores educacionais para assistir essas crianças adequadamente num sistema de inclusão em todas as escolas; além disso, os portadores de Disléxia atendidos nas suas necessidades terão minimizadas as suas dificuldades nas salas de aulas e na feitura das tarefas. Felizmente para o exame vestibular já existem condições especiais de assistência ao estudante disléxico e o mesmo deve ser providenciado para o ensino fundamental
Pensar no assunto não é suficiente, temos que sair da inércia discursiva e procurar soluções efetivas como a ABD tem feito desde a sua fundação há 25 anos.

Abram Topczewski
Neurologista da Infância e Adolescência do Hospital Albert Einstein
Doutor em Neurociências pela UNICAMP
Vice Presidente da ABD

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