Carta do Presidente da International Dislexia Association - IDA

Como posso agradecer a uma palavra que mudou minha vida?

Palavras começam guerras, terminam guerras, fazem você rir ou chorar, inspiram ou assustam, ensinam e consolam.
As palavras permitem aos humanos comunicarem seus conhecimentos, sensações e desejos. Algumas palavras comunicam apenas o geral quando, apenas o geral é necessário (mamíferos X camundongos). As palavras podem conter também a medida precisa do significado de um conceito em particular: muito geral ou muito específica. O publico a que se destina é que vai saber. Existem algumas palavras que significam coisas diferentes em situações diferentes (aí o contexto importa). Quando minha neta diz “ruim” ou “mau”, eu penso bem antes de assumir o significado.

A palavra DISLEXIA mudou minha vida!

Em 1992 voltando de uma conferência da Orton Dyslexia Society, eu e minha mulher Georgette estávamos preocupados, pois os palestrantes que ouvimos estavam adotando uma única definição de Dislexia para identificar o estudante ou o assunto que mais se adaptava aos achados e conclusões que eles queriam ressaltar. Comecei então a coletar artigos sobre este assunto e cheguei a mais de 300 páginas. Três anos depois, num esforço para desenvolver uma definição em consenso, eu convoquei meu amigo e mentor, Bill Ellis (Diretor Profissional do Centro Nacional de Dificuldades de Aprendizagem e antigo Presidente da Orton Dyslexia Society) e o apoio de Reid Lyon, Louisa Moats, Susan Brady e Gordon Sherman. Em abril de 1995, Bill Ellis, Reid Lyon, Jack Fletcher, Sally Shaywitz, Bennet Shaywits, Byron Rourke, e Bruce Pennington se reuniram em uma sala do Hotel Grand Hyatt em Nova Iorque. “À tarde antes de nos encontramos, Jack Fletcher me escreveu, sugerindo que nós estávamos pelo menos dois anos atrasados em relação a um consenso significativo (admito que fiquei preocupado). Na tarde seguinte em aproximadamente duas horas e meia, Jack e Bennet Shaywitz, conduziram a reunião que levou a uma definição de consenso que, duas semanas mais tarde, foi adotada pelos cientistas do Instituto Nacional da Saúde da Criança e Desenvolvimento Humano (NICHD sigla em Inglês) (Lyon, 1995) e foi usada para orientar os trabalhos sobre as dificuldades de leitura até a revisão em 2003, como resultado das pesquisas realizadas (Lyon, Shaywitz, & Shaywitz, 2003).

Francamente eu admito que a definição que resultou, refletiu muito pouco para os três anos que dediquei naquela sala. Entretanto, o fato de eu ter feito alguma coisa para que essa reunião fosse possível já é um orgulho para mim, e espero não ficar fora das portas do paraíso (isso se eu tiver feito apenas isso).
Desde 1995, a palavra Dislexia tem sido uma palavra capaz de comunicação, com uma medida precisa em significado. Por que então, muitos educadores e distritos escolares se recusam a usá-la? Se eu não usar a palavra dislexia talvez ninguém vá se esforçar em usar práticas oriundas de relatórios de pesquisa. A palavra dislexia é uma ferramenta que faz o ensino da leitura mais fácil e efetivo.

O termo dificuldade específica de aprendizagem (SLD da sigla em Inglês) é simplesmente um nível de classificação hierárquica. Você vai colocar elefantes e ratos em uma mesma gaiola ou alimenta-los com a mesma dieta somente porque são mamíferos? Se você junta um grupo de crianças com dificuldade de leitura e aprendizagem em uma mesma sala sem, entretanto diferenciar suas necessidades estará prestado a todas um desserviço. Existem diferentes razões para falhas na leitura. Alguns déficits aparecem no desenvolvimento social, outros em conceitos matemáticos, compreensão, habilidade em generalizar a coisa aprendida e assim por diante. Sem a palavra dislexia, não há nível hierarquico de classificação que identifique o único déficit a que se refere. Claro que as pessoas que têm Dificuldade Específica de Aprendizagem e são disléxicas não são todas iguais assim como os mamíferos. O fato é que, em qualquer nível hierárquico de uma classificação, ela identifica as pessoas assim aquelas classificadas, como tendo algo em comum, mas não as identifica nas diferenças. Assim podemos dizer que a Dificuldade Específica de aprendizagem é o código de área e dislexia é a rua; as pesquisas estão apenas começando a distinguir uma casa da outra. Se os educadores responsáveis por interagir com crianças de risco (de leitura) não tiverem tempo para ler os endereços, não vão melhorar a aprendizagem dessas crianças às quais dedicam sua carreira. O don da leitura não pode ser atingido sem se saber o “endereço” dos estudantes.

A palavra “Dislexia” é no fim, somente uma palavra. É melhor entendida em seu preciso senso de medida, quando usada no contexto de sua definição. Entretanto devido à pesquisa e a replicabilidade dos achados que a definição de consenso produziu a palavra Dislexia passou agora a ter significado para educadores, pais, terapeutas, e talvez mais do que tudo para aqueles que como nós, somos gratos pela ajuda que a palavra “dislexia” nos trouxe.

*Dr. G. Emerson Dickman é presidente da International Dislexia Association - IDA.
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