Tem sido apontada, freqüentemente, no meio clínico
e educacional, uma relação entre freqüência
de leitura e aprendizagem da ortografia, acreditando-se que, para escrever
bem do ponto de vista das convenções ortográficas,
a criança deve ler muito. Deste modo, na prática clínica,
espera-se que, com o aumento da freqüência de leitura a criança
possa superar suas dificuldades em termos de ortografia. Esta hipótese
parece tomar como base a idéia de que aprender a escrever depende
exclusivamente de processos de memorização, como se as
palavras lidas ficassem automaticamente gravadas na mente.
Entretanto,
a prática clínica tem mostrado
que esta relação entre freqüência de escrita
e domínio da ortografia não parece tão automática
ou simples. É possível encontrar crianças que lêem
ativamente, que gostam de ler e que, mesmo assim, apresentam dificuldades
em relação a escrever palavras, revelando que, embora elas
vejam as palavras impressas de uma determinada forma, elas escrevem a
mesma palavra de outra maneira, fazendo substituições de
letras, por exemplo.
Uma pesquisa, sob minha coordenação,
está em andamento tendo em vista estudar possíveis relações
entre o perfil de leitor e a aprendizagem da ortografia. Seu objetivo é o
de analisar, de modo mais aprofundado, a hipótese de que crianças
que são leitores freqüentes escrevem de forma mais correta
uma vez que, estando mais expostas às palavras impressas, elas
teriam maiores chances de memorizá-las e, inversamente, crianças
que lêem pouco não conseguem memorizar a forma gráfica
das palavras e, por esta razão, elas tendem a escrever com muitos
erros ortográficos. Em outras palavras, haveria, realmente, uma
relação entre ler muito e escrever bem e ler pouco e escrever
mal?
Nesta pesquisa, foram selecionadas 380 crianças
com idades variando de 7 a 10 anos e que estão freqüentando
desde a primeira até a quarta séries da escola primária.
Em primeiro lugar, todas as crianças responderam às perguntas
de um questionário com o objetivo de verificar a freqüência
de leitura, a atitude afetiva (gostar ou não gostar) e tipo de
textos ou material que elas costumam ler, com a preocupação
de traçar um perfil de leitor, principalmente em termos de freqüência
de leitura. Em segundo lugar, as mesmas crianças foram solicitadas
a escrever histórias e a realizar ditados programados pelo examinador.
Os textos foram corrigidos a fim de quantificar o número de erros
ortográficos produzidos por cada uma das crianças. As relações
entre perfil de leitor e habilidades ortográficas medidas em termos
da quantidade de erros realizados na escrita foram analisadas a partir
dos dados assim obtidos. A partir dos questionários as crianças
puderam ser classificadas como leitoras freqüentes ou pouco freqüentes
enquanto que, uma análise dos escritos das crianças permitiu
o levantamento do número de erros ortográficos que cada
uma delas produziu na atividade de elaborar histórias e realizar
ditados.
Quanto aos resultados iniciais, quatro grupos foram
selecionados com a seguinte relação:
1) crianças leitoras freqüentes com poucos erros;
2) crianças leitoras freqüentes com muitos erros;
3) crianças leitoras pouco freqüentes com muitos erros e
4) crianças leitoras pouco freqüentes com poucos erros.
O
fato de haver crianças que embora sejam leitores
freqüentes e que mesmo assim produzem muitos erros e, inversamente,
o fato de haver crianças que lêem pouco e que, apesar disto,
escrevem com poucos erros, não confirma hipótese inicial
fazendo crer que a aprendizagem da ortografia depende não somente
da leitura mas também do desenvolvimento de uma atitude de análise
de como as palavras são escritas.