A influência do perfil de leitor nas habilidades ortográficas
Prof. Dr. Jaime Luiz Zorzi
Vice-Presidente do Cefac (Centro de Especialização e Fonoaudiologia Clínica), Doutor em Educação pela UNICAMP, Mestre em Distúrbios da Comunicação pela PUC-SP, professor na mesma universidade, presidente da Associação Brasileira de Fonoaudiologia e diretor-secretário do Conselho Regional de Fonoaudiologia - 2ª Região.

Tem sido apontada, freqüentemente, no meio clínico e educacional, uma relação entre freqüência de leitura e aprendizagem da ortografia, acreditando-se que, para escrever bem do ponto de vista das convenções ortográficas, a criança deve ler muito. Deste modo, na prática clínica, espera-se que, com o aumento da freqüência de leitura a criança possa superar suas dificuldades em termos de ortografia. Esta hipótese parece tomar como base a idéia de que aprender a escrever depende exclusivamente de processos de memorização, como se as palavras lidas ficassem automaticamente gravadas na mente.

Entretanto, a prática clínica tem mostrado que esta relação entre freqüência de escrita e domínio da ortografia não parece tão automática ou simples. É possível encontrar crianças que lêem ativamente, que gostam de ler e que, mesmo assim, apresentam dificuldades em relação a escrever palavras, revelando que, embora elas vejam as palavras impressas de uma determinada forma, elas escrevem a mesma palavra de outra maneira, fazendo substituições de letras, por exemplo.

Uma pesquisa, sob minha coordenação, está em andamento tendo em vista estudar possíveis relações entre o perfil de leitor e a aprendizagem da ortografia. Seu objetivo é o de analisar, de modo mais aprofundado, a hipótese de que crianças que são leitores freqüentes escrevem de forma mais correta uma vez que, estando mais expostas às palavras impressas, elas teriam maiores chances de memorizá-las e, inversamente, crianças que lêem pouco não conseguem memorizar a forma gráfica das palavras e, por esta razão, elas tendem a escrever com muitos erros ortográficos. Em outras palavras, haveria, realmente, uma relação entre ler muito e escrever bem e ler pouco e escrever mal?

Nesta pesquisa, foram selecionadas 380 crianças com idades variando de 7 a 10 anos e que estão freqüentando desde a primeira até a quarta séries da escola primária. Em primeiro lugar, todas as crianças responderam às perguntas de um questionário com o objetivo de verificar a freqüência de leitura, a atitude afetiva (gostar ou não gostar) e tipo de textos ou material que elas costumam ler, com a preocupação de traçar um perfil de leitor, principalmente em termos de freqüência de leitura. Em segundo lugar, as mesmas crianças foram solicitadas a escrever histórias e a realizar ditados programados pelo examinador. Os textos foram corrigidos a fim de quantificar o número de erros ortográficos produzidos por cada uma das crianças. As relações entre perfil de leitor e habilidades ortográficas medidas em termos da quantidade de erros realizados na escrita foram analisadas a partir dos dados assim obtidos. A partir dos questionários as crianças puderam ser classificadas como leitoras freqüentes ou pouco freqüentes enquanto que, uma análise dos escritos das crianças permitiu o levantamento do número de erros ortográficos que cada uma delas produziu na atividade de elaborar histórias e realizar ditados.

Quanto aos resultados iniciais, quatro grupos foram selecionados com a seguinte relação:
1) crianças leitoras freqüentes com poucos erros;
2) crianças leitoras freqüentes com muitos erros;
3) crianças leitoras pouco freqüentes com muitos erros e
4) crianças leitoras pouco freqüentes com poucos erros.

O fato de haver crianças que embora sejam leitores freqüentes e que mesmo assim produzem muitos erros e, inversamente, o fato de haver crianças que lêem pouco e que, apesar disto, escrevem com poucos erros, não confirma hipótese inicial fazendo crer que a aprendizagem da ortografia depende não somente da leitura mas também do desenvolvimento de uma atitude de análise de como as palavras são escritas.

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