Histórico
Segundo Margareth Rawson (1968), a história do reconhecimento da dislexia
de evolução como problema constitucional, remonta do trabalho
de Berlin, que usou o termo “dislexia” já em 1872 e ainda
de W. Pringle Morgan em 1896 e de James Kerr em 1897.
James Hinshelwood, em
1917, publicou uma monografia sobre “Cegueira Verbal Congênita”, quando trabalhou
com adultos afásicos. Ele encontrou distúrbios infantis
com sintomas similares, mas sugeriu que os problemas da dislexia seriam
orgânicos, e ainda levantou a possibilidade de serem hereditários.
Encontrou também mais meninos do que meninas com este tipo de
distúrbio.
Nos Estados Unidos, a classe profissional que primeiro
ajudou no reconhecimento da dislexia foi a de médicos oftalmologistas.
Sua observações mostraram que a dificuldade não
estaria nos olhos, mas no funcionamento de áreas de linguagem
no cérebro: “Não são os olhos que leêm,
mas o cérebro”.
Os psicólogos e educadores do início
do século deram pouca importância aos distúrbios
específicos de linguagem. Só se concentravam no aspecto
pedagógico do problema; com exceção de Brooner (1917)
e Hollingworth (1918, 1925). Ao mesmo tempo, a classe médica negligenciava
o problema na sala de aula, o que contribuia para estabelecer uma grande
lacuna entre a recuperação das crianças e o seu
problema.
Em 1925, se iniciou em Iowa uma pesquisa sobre as
causas de se encaminharem crianças para unidades de saúde
mental. A dificuldade de ler, escrever e soletrar surgiu como uma das
causas principais.
Foi então que surgiu como um grande interessado
no campo do distúrbio de aprendizado, Dr. Samuel Orton, psiquiatra,
neuroanatomista, que fez vários estudos post-mortem em cérebros
humanos. Orton propôs várias hipóteses para a ocorrência
da dislexia e também vários procedimentos para a redução
das suas dificuldades.
Em continuação aos estudos de Orton,
que atribuía a causa do problema a distúrbios de dominância
lateral, encontramos Penfield e Roberts (1959), Zangwill (1960), Sperry
(1964), Masland (1967), Miklebust (1954 - 1971) e atualmente Albert Galaburda,
que descreveu a dislexia de forma mais complexa.
Na França há trabalhos de Varlot e Deconte
(1926) e Ombredama (1937), mas não tiveram continuidade. No campo
da linguagem escrita aparecem Borel Maysony, Arlet Boucier e outros.
Atualmente, Jacques Melher.
Hoje, os estudos mais recentes estão no campo
psiconeurológico. O Brasil também tem sua contribuição
com a pesquisa sobre “A diferença dos volumes dos lobos
temporais direito e esquerdo”.
Definição
“É uma dificuldade acentuada que ocorre no processo da leitura,
escrita e ortografia. Não é uma doença, mas um distúrbio
com uma série de características. Ela torna-se evidente na época
da alfabetização, embora alguns sintomas já estejam presentes
em fases anteriores. Apesar de instrução convencional, adequada
inteligência e oportunidade sócio cultural e sem distúrbios
cognitivos fundamentais, a criança falha no processo da aquisição
da linguagem. Ela independe de causas intelectuais, emocionais ou culturais.
Ela é hereditária e a incidência é maior em meninos,
numa proporção de 3/1. A ocorrência é de cerca de
10% da população Mundial.”
Esta é, aproximadamente, a definição
usada por Orton (1925), Herman (1959), Eisenberg, Money, Rabinovitch
e Saunders (1962), Crichley, Cole e Walker (1964), Flover e Lawson (1965),
Thompson (1966) e outros.
Para Jane Schulman e Alan Leviton (1978): “Um
distúrbio de leitura á geralmete definido como uma discrepância
de, pelo menos, dois anos entre o nível de leitura real e o nível
esperado em relação à idade cronológica”.
Esta definição não poderia se aplicar a uma população
carente.
Há também uma definição
recente de Miklebust: “É uma desordem de linguagem que impede
a aquisição de sentido através das palavras escritas,
por causa de um déficit na habilidade de simbolização.
Pode ser endógena ou exógena, congênita ou adquirida.
As limitações na linguagem escrita são demonstradas
por uma discrepância entre a aquisição real e a esperada.
Estas limitações derivam-se de disfunções
cerebrais, manifestadas por perturbações na cognição.
Não atribuídas a impedimentos motores, sensoriais, intelectuais
ou emocionais, nem ensino inadequado ou falta de oportunidade”.
Diagnóstico
O diagnóstico deve ser feito por uma equipe multidisciplinar. Não
somente para se obter o diagnóstico de dislexia, mas para se determinarem,
ou eliminarem, fatores coexistentes de importância para o tratamento.
A criança deve então ser avaliada por um psicólogo, um
fonoaudiólogo, um psicopedagogo e um neurologista. O diagnóstico
deve ser significativo para ospais e educadores, assim como para a criança.
Simplesmente encontrar um rótulo não deve ser o objetivo da avaliação,
mas tentar estabelecer um prognóstico e encontrar elementos significativos
para o programa de reeducação.
É de grande importância que sejam obtidas
informações sobre o potencial da criança, bem como
sobre suas características psiconeurológicas, sua performance
e o repertório já adquirido. Informações
sobre métodos de ensino pelos quais a criança foi submetida
também são de grande significação.
Segundo
Elena Border, a dislexia é diagnosticada
dos seguintes modos: a) por processo de exclusão; b) indiretamente, à base
de elementos neurológicos; c) diretamente, à base da freqüência
e persistência de certos erros na escrita e na leitura.
Em todos
os diagnósticos o fato da criança
não ter sido alfabetizada pelos processos comuns, ou um histórico
familiar com distúrbios de aprendizagem, são importantes.
Classificação
Miklebust classifica a dislexiaem três grupos: Dislexia Visual,
Dislexia Auditiva e Dislexia Mista.
Ingram (1970), realizou uma pesquisa
com crianças
com dificuldades de aprendizagem e dividiu-as em dois grupos: Específicos
- cuja dificuldade estava limitada à leitura-escrita; Gerais -
com outras dificuldades, como matemática (discalculia).
Bannatyne
(1966), descreve dois tipos de dislexia: Dislexia Genética e Dislexia por Disfunção Neurológica
Mínima. Ele caracteriza o disléxico genético, como
tendo dificuldades em discriminação auditiva, sequenciação
auditiva e associação do fonema-grafema. Já o disléxico
com disfunções mínimas, teria dificuldades viso-espaciais,
cinestésico-motoras, táteis e de conceitos.
Smith (1970),
baseando-se na análise dos sub-testes
de WISC, testou 300 crianças com problemas de leitura, identificando-as
três grupos:
-
67% mostraram-se bem nos sub-testes, relacionados
com habilidades espaciais e fracos na manipulação de símbolos
e habilidades de sequênciação temporal.
- 15% tiveram déficits em organização espacial e
perceptiva visual e coordenação viso-motora.
- 18% tiveram características dos dois grupos anteriores.
Em 1971, Elena
Boorder e Miklebust, classificaram vários grupos:
Dislexia Disfonética - dificuldade
auditiva, dificuldade de análise e síntese, dificuldade de discriminação,
dificuldades temporais (em perceber sucessão e duração).
Sintomas mais comuns: trocas de fonemas e grafemas diferentes;
dificuldades com logatomas;
alterações grosseiras na ordem das letras e sílabas;
omissões e acréscimos;
maior dificuldade com a escrita do que com a leitura;
substituições de palavras por sinônimos, ou trocas de palavras
por outras visualmente semelhantes (reconhece-as globalmente)
Dislexia Diseidética - dificuldades visuais, na percepção
guestáltica, na análise e síntese e dificuldades espaciais
(percepção das direções, localizações,
relações e distâncias). Sintomas mais comuns: leitura silabada,
sem conseguir a síntese;
aglutinação - fragmentação;
troca por equivalentes fonéticos;
maior dificuldade para a leitura do que para a escrita.
Dislexia Visual - deficiência
na percepção visual. Sintomas: dificuldade na percepção
viso-motora;
dificuldade na habilidade visual (não visualiza cognitivamente o fonema).
Dislexia Auditiva - deficiência na percepção auditiva.
Sintomas:
deficiente memória auditiva;
deficiente discriminação auditiva (não audibiliza cognitivamente
o fonema).
Segundo as escolas mais modernas e os teóricos mais atualizados em linguística,
o fenômeno da linguagem escrita não é a transição
da linguagem oral. Ela tem suas próprias sequências e deve ser
adquirida como uma nova linguagem; antes de tudo, com aspectos semânticos
enfatizados e não como simples decodificação e codificação,
que requerem síntese e análise visual e auditiva, assim como
discriminação temporo-espacial.